01 - VELHO CARREIRO
Toada Martimiano - Valério Borges
Quem ver passar naquela curva do caminho
Um homem velho que está sempre sozinho
Não acredita que esse homem foi carreiro
Já foi tropeiro e cantador deste sertão
Quem vê lá em cima a casinha abandonada
Não acredita que ali já foi morada
Da alegria e da maior felicidade
Hoje não passa de um recanto de saudade
E todo dia ela passava chamando os bois
Ia o Carreiro lá na estrada o boi fumaça ia guiando
Junto do carro ele também ia cantando
O carro deixava na terra as marcas
Que o tempo depressa apagou
Ficou sobre sua cabeça
Um rastro de lua
Que a vida deixou
Carro de boi que apodrece lá num canto
Até os cravos da madeira a ferrugem já comeu
Velho carreiro olha a curva do caminho
Já pisou tantos espinhos
Que a dor já esqueceu
E olha o céu por entre
Os galhos da paineira
Que passou a vida inteira
Dando sombra neste chão
Quero uma cruz sobre
A morada derradeira
De um pedaço da madeira
Do velho carro de boi
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02 - IDENTIDADE DE VIOLEIRO
Pagode Maurício / João Carlos
Fazer moda é minha sina
Cantar é coisa que gosto
No braço desse meu pinho
Minha vida eu aposto
Nos ponteios que formulo
Deixo minhas digitais
Depois que bato um pagode
A platéia pede mais
Esse é um dom de Deus
Que eu tenho
Em minhas mãos
Cada verso que eu faço
Deixo a minha contribuição
Pois eu canto a minha vida
Que originou no sertão
No que eu faço não escondo
Esse meu jeito bem peão
Quem ama o som da viola
Só pode ser meu amigo
Nos trabalhos que eu faço
Eu transformo em abrigo
Protegendo as raízes
De forma original
Viola é igual cachaça
É uma paixão nacional
Não tenho vida de rei
Não tenho pote de ouro
Mas tenho dignidade
Esse é meu maior tesouro
Eu ponho no meu talento
A minha identidade
Divulgando a cultura
Um patrimônio
Da humanidade
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03 - BOCA DE PEDRA
Baião Adriano Rosa / Maurício Felipe / João
Carlos
Tatuada na terra uma cara de onça
De olhos matreiros e dentes cerrados
Uma boca de pedra no alto da serra
Guardiã derradeira dos antepassados
Uma onça pintada de ouro encarnado
De olhar aceso e rastro calado
Uma deusa morena criada na terra
Cunhantã mateira pintada pra guerra
Tecendo versos na teia da aranha
Uma estória estranha um conto aluado
Numa noite fria no ventre da roça
Um beijo de onça e um abraço apertado
Lembranças de um tempo de lenço e vento
Na boca do povo uma moda de viola
João Pereirinha anuncia o ditado
A viola é a primeira no fio do machado
No meio do pasto o rastro da pintada
Pela madrugada em meio a escuridão
Espreita na mata a danada miando
Em sonho de poeta vira inspiração
No mugido do boi a boiada se foi
A lenha no braseiro atiçando a fornalha
Um espírito de onça vem sondar a casa
E a lenda roceira vai criando asas
A boca de pedra é séria vê calada
Não solta risada por qualquer preço
O seu dono ao contrário lhe da um salário
Pra não revelar o seu endereço
A onça espia e fica na tocaia
Pisando na paia em céu constelado
E na madrugada a brisa assovia
E em segredo mia chamando o passado
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04 - MINHAS ORIGENS
Guarânia Altair José de Oliveira / Maurício
Felipe
Aqui na cidade sou bem conhecido
Tenho muitos amigos não posso negar
Na minha rua ainda se cumprimenta
E a gente tenta se acostumar
Mas meu coração que é sertanejo
Sempre me faz comentar
É la na roça que eu nasci
E é para lá que eu quero voltar
Me inspirar na lua e com minha viola
Cantar para ela antes de deitar
E no aconchego do seu abraço
Acordar ouvindo o galo cantar
Coar café no fogão de lenha
Tirar do forno um bolo de fubá
Acender um cigarro de palha
Esquentar a bota antes de calçar
Debulhar o milho e tratar das galinhas
Das minhas vacas o leite tirar
Ir para o trabalho sem medo de assalto
E ver lá no alto o sol despontar
Cavar a terra e plantar a semente
No mistério da vida vê-la germinar
Tirar o sustento da minha família
Com os frutos colhidos deste meu lugar
Pescar no rio de água cristalina
Sem poluição sem cheiro no ar
E as borboletas multicoloridas
Alegres voando a me rodear
A saracura velha companheira
No brejo cantando vem me festejar
E ouvindo o som da cascata na pedra
Na água corrente eu vou me banhar
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05 - FILHO DE CARREIRO
Ritmo: Cururu Maurício Felipe / João Carlos
Minha gente aqui retorno aos meus tempos de menino
Lembrança me fez voltar um capricho do destino
Andei por muitos caminhos tropecei me reergui
Mas eu só me encontrei quando olhei dentro de mim
Vi papai que carreava com uma grande alegria
E eu de cima do carro para aboiada pedia
Vai guiando pirilampo
Vai de guia figurão
Conduzindo os bois do meio
Pra não cair no grotão
Vai puxando boi rochedo
Vai puxando boi sultão
E na lida bem felizes
Íamos rompendo chão
A vontade de vencer, me fez deixar este chão
Eu deixei minha família e aqui meu coração
Mas é aqui neste rancho que agora eu vou ficar
Sentir o cheiro da terra e o calor de um lar
Meu papai pegue a viola me chame pra lhe ajudar
Lembrar do carro de boi na varanda ao luar
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06 - FAMA DE BANDIDO
Pagode Adriano Rosa / João Carlos / Maurício
Bota zape nesse truco
Que vai levantar poeira
Chega a espora no marruco
Que o baque vai ser pedreira
Bota a lenha na fornalha
Deixa chiar a chaleira
Levanta a mão pro céu
E manda abrir a porteira
Para encarar essa fera
Tem que ser muito valente
Esse touro é sacudido
Animal do sangue quente
É um galã de novela
É sucesso garantido
É por essas e por outras
Que sua fama é a de bandido
Tem que ter muita coragem
Pra embarcar nessa viagem
Assina um papel em branco
E não é preciso passagem
Não adianta benzedeira
Nem resolve sabotagem
Pra quem for o felizardo
Uma feliz aterrissagem
Não tem espora de prata
Nem tem fivela de ouro
Quero ver bater a espora
No desenho desse couro
Cada golpe é uma emoção
Cada imagem é um tesouro
Vale mais de um milhão
Cada pulo desse touro
Peão que é peão segura
Peão que é abelha voa
É aqui que o filho chora
E a mãe desacorçoa
Quando a porca torce
O rabo vira bote e canoa
Se fugir da cascavel
Cai na boca da leoa
No lombo desse tirano
Mora raio e trovão
Terremoto corcoveia
No olho do furacão
Esse touro é chapa quente
É liso igual sabão
É como pedra noventa
É aço de vergalhão
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07 - MULÃO DE TRÊS CORES
Querumana Roberto Moreno / João Miranda
Veja o que aconteceu com esse velhinho
E o seu jumentinho de nome brioso
Moravam vizinhos a um criador
Homem sem pudor e muito orgulhoso
Um dia o brioso fugiu do cercado
Saltou pro outro lado é da natureza
Cobriu uma égua em poucos instantes
A mais importante e de linhagem inglesa
O tempo passou e a barriga cresceu
O patrão percebeu e ficou furioso
Um peão da fazenda falou que sabia
Que o pai dessa cria seria o brioso
Foi grande a revolta do fazendeiro
Esse pega arteiro está condenado
No dia seguinte o velhinho chorou
O brioso encontrou morto envenenado
Quando a cria nasceu era uma mulinha
Mas ela não tinha um pai consagrado
O tal fazendeiro veio lhe trazer
Para não morrer vou jogar pro seu lado
Foi gritando bem alto pro mundo ouvir
Vai embora daqui que eu estou furioso
Também leva contigo esse animal
Pra não ter o final que teve o brioso
O velho foi embora daquele lugar
E acabou de criar a mula Dolores
Ficou tão bonita com nada compara
Uma jóia rara mulão de três cores
Foram passear numa exposição
Tinha só campeões e grandes compradores
Chegou um estranho muito interessado
Vim de outro estado comprar a três cores
Pago qualquer preço por este mulão
No tom de carvão, branco e cor de mel
Já faz muito tempo que estou procurando
É o que está faltando para o meu plantel
O velho olhou e viu no semblante
No mesmo instante reconheceu
Era o fazendeiro pagando afinal
Por esse animal que um dia foi seu
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08 - CARRETEIRO DA SOLIDÃO
Toada Matimiano Valério Borges
Levando o gado de sol a sol
Era feliz o boiadeiro
Quando de noite o sonho vinha
Dormia em cima do baixeiro
Mas esta vida traz a surpresa
Correu notícia na região
Iam fazer a nova estrada
E de asfalto cobriram o chão
Varando a noite
Cortando a estrada
É boiadeiro é fanfarrão
É cavaleiro das invernadas
Lá nos caminhos do sertão
Com a chegada dos caminhões
Aposentaram o boiadeiro
Sem seu trabalho com sua mágoa
Foi ser chofer de caminhão
O seu cavalo seu companheiro
Entristeceu ele partiu
Sua viola dependurada
Empoeirada não toca mais
A gente paga pelo progresso
Nem o berrante não há mais não
A gente escuta pelas estradas
Só buzina de caminhão
Vêm as lembranças das vaquejadas
Puxando as rédeas do alazão
As suas mãos estão coladas
Estão pregadas na direção
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09 - PAGODE É ASSIM
Pagode Benedicto Tavares
Coruja canta no toco
Sabiá na laranjeira
Eu no braço da viola
Canto até a noite inteira
Canto moda apaixonada
Se a morena for faceira
Chego junto nas paradas
Nunca encontrei barreira
Tem gente que fala muito
Mas nunca diz a verdade
Coisa feia neste mundo
É a tal da falsidade
Pra não falar da mentira
Pra que tanta crueldade
O que vale nesta vida
É a nossa sinceridade
Cantar no braço do pinho
Para mim é uma riqueza
Canto moda colorida
Desenhando a natureza
Faço versos inspirados
Também uso da franqueza
Agradeço a lei divina
Por haver tanta beleza
Violeiro pra ser violeiro
Tem que ter a tradição
Ter no peito uma saudade
E a fogueira da paixão
No repique da viola
Repicar seu coração
Ter um pensamento alto
Mas também o pé no chão
Pra bater este pagode
Muito eu tive que viver
Mas no chão de nossa vida
Sempre é tempo de aprender
Pra quem tem amor no peito
É preciso florescer
Pra quem tem felicidade
Não é preciso sofrer
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10 - OFERTÓRIO SERTANEJO
Cururu Maurício Felipe / João Carlos
Sou um caboclo que veio da terra
Um caipira que veio da luta
Sertanejo que não ama a guerra
Mas que preza a liberdade
De plantar e de colher
De sonhar e de viver
De fazer viver oiá
De fazer viver
Da viola brotou o meu canto
Secou o meu pranto ao ver germinar
A esperança a luz a certeza
Ter sempre na mesa
A partilha o pão
Eu estava entre aqueles que labutavam
Entre aqueles que cantavam
No dia do mutirão
Com a força das nossas mãos
E o poder de nossa união
Construímos um moinho
Pra fazer fubá oiá
E nos alimentar
Nós viemos celebrar a nossa lida
Ofertarmos nossa vida
No altar de Jesus
E cantarmos a verdade
Que é na comunidade
Que o senhor se faz comida
Que o senhor se faz bebida oiá
Que se faz libertação
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11 - TERRA AROEIRA
Toada-cateretê Maurício Felipe
Vim da terra aroeira vim dos campos do serrado
Tenho o sangue do caboclo venho da lida do gado
O meu nome é Severino, Zé, Maria, Tião,
João
Tenho os calos de uma vida cheia de recordação
Eu formei o cafezal
Plantei sonhos no meu chão
Rocei mato abri estradas
Desbravei o meu sertão
Trabalhei de sol a sol
Em busca de evolução
Vi nascer a esperança
Em cada palmo de chão
Acordava o meu recanto
Em cima de um alazão
Vendo a terra no cio
Vendo o verde no grotão
O orvalho gotejando
Quando nascia o sol e as
Plantinhas perfumadas
Em um forte arrebol
Escutava os passarinhos
Uma linda melodia
Ritmada pelos galhos
Quando o vento batia
O maestro sabiá
No galho da laranjeira
O animado João de Barro
Lá em cima da paineira
Vim da terra aroeira
Lá onde moram os bichos
Onde a vida era sem luxo
Mas também era sem lixo
Onde eu tive alegrias
Que não tenho na cidade
Lá vivi a harmonia
De uma comunidade
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12 - O MILIONÁRIO (THE MILLIONAIRE)
“Instrumental” Mike Max Field
não disponível
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13 - AMOR DE PEÃO
Arrasta-pé Maurício Felipe
Minha morena vamos dançar
Neste salão vamos suar
Eu estou com tudo
Vou à luta no balanço
Arrasta pé nunca me cansa
Eu vou te fazer vibrar
To ligadão nesse
Teu jeito delicado
No teu dançar requebrado
Eu vou me aconchegar
Sou teu peão
Vem me abraçar
Depois do baile
Vamos amar
Eu quero te fazer
Mulher é meu desejo
Quero te encher de beijos
Eu vou me apaixonar
Pois amanhã saio
A galope no sertão
Mas sei que meu coração
Aqui mesmo ficará
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14 - A CANA
Pagode Antônio Mansano
A cana tem nó
Nós não vamos chupar
Passa ela na engenhoca
Pra garapa nós tomar
A garapa é gostosa
E a pinga é mió
É difícil um cristão
Que não toma a sua pinga
Seja pouca ou seja muita
Ela sempre tem saída
Desce o caldo pra barriga
E o álcool vai pra riba
Lambiqueiro faz a pinga
Comerciante compra ela
Ajeita na prateleira
E os pinguço bebe dela
Eu também bebo da pinga
E tem que ser da amarela
A cana sai da terra
E dá boa produção
Trata o gado faz açúcar
Faz melado que é bão
Ela dá muitos produtos
Que serve para a nação
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15 - SALVEM O SERTÃO
Toada Roberto Moreno / João Miranda
Lá no meu rancho
Escuto o som da cachoeira
Vivo as margens do ribeira
De água pura e cristalina
O meu recanto
É muito longe da cidade
Nem pertenço à sociedade
Vou seguindo a minha sina
Vivo da pesca
E a plantação da minha horta
A natureza conforta
O sol é meu companheiro
Vivo isolado neste imenso paraíso
Confesso que não preciso
Ser escravo do dinheiro
Aqui não sei o que é poluição
O ar puro do sertão
E o silêncio é quem domina
Fico escutando a passarada cantando
O monjolo trabalhando
Com água que vem da mina
São coisas simples
Que pra mim tem mais valor
Como abelha numa flor
Multiplicando a família
Quando anoitece
Aumenta o meu encanto
Ilumina todo o campo
A lua que sempre brilha
Eu fui nascido
Na cidade grande e fria
Por isso minha alegria
Misturava com a tristeza
Sou professor
Formado em faculdade
Mas minha realidade
É viver na natureza
O meu projeto
De viver em liberdade
Me trouxe a realidade
Que pensei não existia
A alegria voltou a me dominar
Por aqui eu vou ficar
Até meu último dia
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