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CD As Dez Querumanas
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Letras deste Álbum

01- MEU RECANTO MEU PARAÍSO
02- O NOVO ENDEREÇO ---------BAIXAR MP3
03- SERTANEJO E SERTÃO
04- MEU CANTO CAIPIRA
05- PALAVRA DO HOMEM
06- HOMEM DE LATA
07- HARMONIA SERTANEJA ------BAIXAR MP3
08- O DONO DA HERANÇA
09- PATRIOTA DA FOME
10- MULÃO DE TRÊS CORES



01 - MEU RECANTO MEU PARAISO

João Miranda / Goiano


Eu sou caipira do mato
Um caboclo nato e não nego a raiz
Tenho a pele queimada
Essência entranhada da flor no nariz
Chapéu de palha e botina
Luta matutina que me faz feliz
Não sou homem de bravata
Meu rancho de taipa eu mesmo é que fiz


O galo canta eu levanto
Sempre me encanto com a cerração
Também contemplo as rolinhas
Que pousam e caminham la no mangueirão
Os canarinhos cantando
O sanhaço bicando a polpa do mamão
Jogo milho pras galinha
O sol suga as gotinhas de orvalho no chão


Sinto uma satisfação
Quando a criação termino de tratar
Volto pro rancho e a mulher
Me serve café com bolo de fubá
Faço um cigarro de palha
E vou à batalha outro dia enfrentar
Passo e levo da mina
Pura e cristalina a água pra tomar

Bem lá no alto da serra
No ventre da terra semeio a semente
Rego com muito suor
Com fé e amor eu espero paciente
Que o centeio do pão nasce e vingue
O botão pra dar o fruto pra gente
De tarde eu volto à palhoça
Quando o sol na roça se vai no poente


Me banho no ribeirão
Depois tomo um pingão na hora do jantar
Sento no banco lá fora
E ali passo horas a admirar
O céu com suas centelhas
Também as estrelas mudar de lugar
Vejo a lua sem lume
E os vaga lumes no escuro à brilhar


Esse meu reino encantado
É abençoado por nosso senhor
Graças à mãe natureza
Fartura na mesa tem o lavrador
Eu sou um caboclo rude
Mais tenho saúde a paz e o amor
Se existe a felicidade
Nasceu na verdade no interior


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02 - O NOVO ENDEREÇO

Martimiano V. Borges / João Carlos / Maurício

Eu morava em um condomínio
De luxo grã fino la na capital
Não sabia o que me incomodava
O tempo passava eu não era normal
No meu carro uma estrela na frente
Eu era gerente em multinacional
Ser feliz sem ter felicidade
Já passava da meia idade
Decidi minha outra metade
Eu quero viver de modo natural

Conversava sempre com o porteiro
Um caboclo mineiro até calmo demais
Percebeu que eu ia estressar
Nós vamos passear no sítio dos meus pais
Nossa casa não tem nada nobre
A família é pobre e sem dons sociais
Seu convite de pronto aceitei
Viajamos e quando cheguei
Já senti minha vida mudei
Estava no sertão lá de Minas Gerais

Uma casa grande avarandada
Sem água encanada, luz de lampião
Fui tirando depressa o sapato
Pra sentir no tato a força do chão
Conheci o luar cor de prata
O perfume da mata, água do ribeirão
Eu dormi numa rede amarela
Saiu o sol fui abrindo a janela
Contemplei uma linda aquarela
Mexeu o compasso do meu coração

Descobri meu real paraíso
Tudo que eu preciso, voltei a sorrir
Caminhei pela relva molhada
Avistei na baixada as flores florir
O arco Iris mostrou suas cores
Com esses valores não vou resistir
Minha agenda que estava lotada
Eu larguei num canto abandonada
Já troquei minha vida passada
Nenhum compromisso terei que cumprir

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03 - SERTANEJO E SERTÃO

O SERTANEJO E O SERTÃO

Roberto Moreno / Nino de Andrade

O lugar que nasci e fui criado
Um mundo isolado é a minha paixão
Comecei muito cedo na lida
Aprendi com a vida minha obrigação
Sei caçar, sei pescar, sei plantar
Também sei preservar a riqueza do chão
Eu conheço o sol pelo seu brilho
Sou nato sou filho do grande sertão

O progresso tudo vai mudando
Vai modificando é assim que eu vejo
Mais jamais vai mudar a paixão
Que está no coração de um sertanejo

Eu sei tudo das coisas da roça
Viver na palhoça e palha no colchão
O sabor da galinha caipira
Gordura que vira farofa e pirão
Da mandioca eu faço farinha
Torrada fininha pra por no feijão
Água pura nasce na pedreira
Desce em cachoeira lá no espigão

Aprendi o que é liberdade
A honestidade modelo padrão
Eu lutei pela mãe natureza
E vi sua riqueza escorrer pelas mãos
Hoje vivo distante dali
Mas nunca esqueci está no meu coração
O destino me tirou de lá
Não consigo parar de sonhar com o sertão


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04 - MEU CANTO CAIPIRA

Batista dos Santos

O braço da viola é meu passaporte
Eu nasci com sorte de ser violeiro
Ao som do ponteio me sinto mais forte
Pra traçar meu norte no rumo certeiro
Nas rimas que faço destacam meus versos
Nesse universo sou um menestrel
Se um tranco da vida me mostra o reverso
Com Deus eu converso e retomo o papel

A dor da distância é que me entristece
Meu peito padece a saudade me inspira
Ao lembrar dos tempos la do meu rincão
Nos tristes momentos de recordação
Domo a solidão com o meu canto caipira

A mente retrata a vida passada
Projeta uma estrada batida de terra
O vento da tarde embalando a florada
A brisa molhada na encosta da serra
Vejo a queda d'água da grande cascata
O sereno na mata molhando o vergel
Passarada em bando revoam no ar
O sol a brilhar no azulado do céu

A velha porteira batendo com o vento
Regi o pensamento em forma de lira
Componho na pauta da imaginação
O tema que ostenta a beleza do chão
No velho espigão do meu canto caipira

Como dois irmãos no mesmo destino
Trazemos no tino o dom de cantar
A perseverança é um livro de ensino
O poder divino é que nos faz brilhar
Em busca da glória vamos prosseguindo
E o povo aplaudindo renova a emoção
O palco da vida fechando e abrindo
Vai nos conduzindo à nobre missão

Bebemos na fonte do amor e bondade
Cantando a verdade a platéia admira
Poesia cabocla tem por tradição
Raiz da cultura que vem do sertão
Doce inspiração do meu canto caipira

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05 - A PALAVRA DO HOMEM

Tião Goiano / Ribas

Já faz tempo mas não esqueci
Como foi que vivi a minha mocidade
Esse tempo era tão diferente
Digo francamente hoje sinto saudade
As meninas brincavam de roda
Eu cantava moda raiz de verdade
Era muito jovem pra imaginar
Que fosse acabar a nossa liberdade

A geração de alguns anos atrás
Não haviam rivais era só harmonia
Apesar de ter pouco estudo
Eu tinha de tudo em minha moradia
O trabalho era obrigação
Uma devoção no meu dia a dia
Não havia roubo e nem passava fome
A palavra do homem ainda valia

Hoje em dia só tem falsidade
A criminalidade é a forte notícia
É muito difícil um jovem cristão
Com a bíblia na mão assistindo a missa
É tão triste ver um pai chorando
O seu filho apanhando nas mãos da polícia
As igrejas quase abandonadas
Cadeias lotadas de monstros preguiças

São poucos que hoje seguem a religião
Tem menino pagão que o pai não batizou
O mundo é o mesmo que Deus fez um dia
A humanidade tudo transformou
De uns tempos pra cá a mudança é geral
Foi pro lado do mal que o povo mudou
Com certeza estou indignado
Do cruel estado que o homem chegou

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06 - HOMEM DE LATA

Adivaldo Dias / José Ulisses / Vanderi

Eu sou aquele caipira que trocou sem precisão
A sua tranqüilidade por uma vida de cão
Deixou distante o roçado e o cheiro da plantação
Lá eu não tinha recurso mas tinha disposição
Trabalhava todo dia a enxada garantia
O meu arroz com feijão

Distante do meu sertão
Perdi minha juventude
Voltar para a minha terra
Franqueza ainda não pude
Estou pagando bem caro
Pela minha atitude
O vírus do desemprego
Abalou minha saúde
Sempre devendo na praça
Vivo nervoso e sem graça

Pedindo a Deus que me ajude

Depois que eu deixei a roça
Eu só tive desengano
Estou cada vez mais pobre
A vida está me ralando
Em cima do que é dos outros
De favor estou morando
Meu emprego na indústria
Já perdi há mais de um ano
Veja só o que aconteceu
No lugar que era meu
Tem um robô trabalhando
*

Com essa invenção moderna
O emprego eu perdi no ato
Essa tecnologia
É pedra no meu sapato
Fizeram o homem de lata
Pra trabalhar mais barato
Ele faz tudo certinho
Já escutei o boato
A notícia me incomoda
Japonês inventa moda
Eu aqui que pago o pato

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07 - HARMONIA SERTANEJA

Ademar Braga

Quando amanhece lá no rancho do roceiro
Há rumores nos poleiros
E barulho nos currais
A araponga pra cumprir sua rotina
Abre as portas da oficina
Pra moldar os seus metais
O sol vermelho vai saindo da garagem
Pra iniciar sua viajem
Que tem hora pra chegar
O ribeirão deixa a fonte lá na serra
Levando o suco da terra
Para despejar no mar

E nesse encanto de harmonia e perfeição
O caboclo do sertão vive em plena liberdade
A fé em Deus é o seu grande segredo
O caboclo só tem medo é do bicho da cidade

O João de Barro vai descendo lá pra mina
Pra buscar matéria prima
Para sua construção
O sabia senta lá no pé de amora
Fica mais de duas horas
Gorjeando uma canção
Enquanto isso um gavião passa baixinho
Perseguindo um canarinho
Silenciando os tuins
Lá na baixada a pequena codorninha
Pia triste tão sozinha
No trieiro do capim

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08 - O DONO DA HERANÇA

Roberto Moreno / Ulisses Comphany

Um milionário já no fim da vida
De forma atrevida fez um testamento
Guardou em segredo o que nele constava
Só imaginava o grande momento
Tinha quatro filhos três do casamento
E o quarto rebento de cor mais escura
Fruto de um romance de tempos passado
Por todos herdeiros foi discriminado
Junto aos empregados tinha vida dura

A morte do velho chegou afinal
Se formou um tribunal pra ler o testamento
Num salão bem grande da rica mansão
Grande multidão esperava o momento
O advogado daquela família
No instante que lia a parte inicial
Mostrou na parede um quadro pendurado
Pintura em tela meio amarelado
Do irmão rejeitado em tamanho normal

Seguindo o escrito deste testamento
Farei à contento um pequeno leilão
Espero uma oferta pra vender o quadro
Que era do agrado do nosso patrão
Não teve nem lance não interessava
A obra ofertada e alguém disse assim
Vou ficar com o quadro sou o jardineiro
Tenho gratidão por esse companheiro
Legítimo herdeiro criado por mim

Foi grande a surpresa do anunciado
Quando o advogado leu o texto final
Este testamento está terminado
De um modo traçado e muito original
Quem comprou a tela que ali foi mostrada
Fica comprovada minha confiança
Terá meu aval de modo verdadeiro
Será proclamado o único herdeiro
Por minha vontade o dono da herança

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09 - PATRIOTA DA FOME

Ciro Rosa / João Miranda

Presidente incentive o roceiro
Que esse guerreiro sustenta a nação
Se não financiar esses homens
Pode crer que a fome não tem solução
Não se esqueça que o nosso progresso
Defende o sucesso do nosso sertão
Patriotas do nosso Brasil
Estão passando frio e com falta de pão

Presidente sou um pobre roceiro
Estou sem dinheiro pode acreditar
Na lavoura eu perdi cem por cento
O financiamento não posso pagar
O meu sítio ganhei de herança
E são sete crianças para sustentar
Meu trator está hipotecado
O sítio executado o banco vai tomar

Se acaso o sítio eu perder
O que vou fazer senhor presidente
Apesar de ter calos nas mãos
Não tenho profissão sou um homem carente
Se o senhor prometer me ajudar
E financiar de novo a semente
Eu pagarei trabalhando
Além disso levando o progresso pra frente

Presidente o gerente do banco
Comigo foi franco pelo telefone
Ele disse que a situação só terá solução
Se eu achar quem me abone
Por isso eu imploro ao senhor
Sou mais um lavrador
Que vem aos pés do homem
Presidente se eu for pra cidade
Vou ser na verdade um patriota da fome

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10 - MULÃO DE TRÊS CORES

Roberto Moreno / João Miranda

Veja o que aconteceu com esse velhinho
E o seu jumentinho de nome brioso
Moravam vizinhos a um criador
Homem sem pudor e muito orgulhoso
Um dia o brioso fugiu do cercado
Saltou pro outro lado é da natureza
Cobriu uma égua em poucos instantes
A mais importante e de linhagem inglesa

O tempo passou e a barriga cresceu
O patrão percebeu e ficou furioso
Um peão da fazenda falou que sabia
Que o pai dessa cria seria o brioso
Foi grande a revolta do fazendeiro
Esse pega arteiro está condenado
No dia seguinte o velhinho chorou
O brioso encontrou morto envenenado

Quando a cria nasceu era uma mulinha
Mas ela não tinha um pai consagrado
O tal fazendeiro veio lhe trazer
Para não morrer vou jogar pro seu lado
Foi gritando bem alto pro mundo ouvir
Vai embora daqui que eu estou furioso
Também leva contigo esse animal
Pra não ter o final que teve o brioso

O velho foi embora daquele lugar
E acabou de criar a mula Dolores
Ficou tão bonita com nada compara
Uma jóia rara mulão de três cores
Foram passear numa exposição
Tinha só campeões e grandes compradores
Chegou um estranho muito interessado
Vim de outro estado comprar a três cores

Pago qualquer preço por este mulão
No tom de carvão, branco e cor de mel
Já faz muito tempo que estou procurando
É o que está faltando para o meu plantel
O velho olhou e viu no semblante
No mesmo instante reconheceu
Era o fazendeiro pagando afinal
Por esse animal que um dia foi seu


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